Fabricio Dudekpsicólogo · crp 12/30506

O Efeito ELIZA: por que um código de 1966 fez as pessoas pedirem privacidade

tecnologia · 28 jul 2026 · 6 min

Em 1966, Joseph Weizenbaum escreveu no MIT um programa chamado ELIZA. A intenção dele era satírica. Ele queria mostrar que a conversa entre pessoas é mais superficial do que a gente gosta de admitir, e que dava para imitar um pedaço dela com quase nada.

A lógica do código era mesmo infantil. Ele pegava o que você digitava e devolvia em forma de pergunta.

Você: "Estou triste." ELIZA: "Por que você diz que está triste?"

Quando faltava palavra-chave para trabalhar, o programa mandava a resposta coringa: "conte-me mais sobre isso". E bastava. As pessoas ficavam ali por horas.

O episódio que estragou a piada

A parte que Weizenbaum contou depois, e que ficou famosa, envolve a secretária dele. Ela sabia o básico de programação e sabia perfeitamente o que era aquele programa.

Em poucos dias, ela pediu que ele saísse da sala. Queria conversar com a ELIZA em particular.

Tem um detalhe que costuma ficar de fora e que é o melhor da história: quando ela descobriu que ele lia as transcrições das conversas, ficou indignada e o acusou de bisbilhotar a intimidade das pessoas. Ou seja, ela não só tratou o programa como interlocutor. Ela reivindicou sigilo.

O que os profissionais fizeram com aquilo

Aqui eu preciso corrigir uma coisa que eu mesmo publiquei numa versão anterior deste material. Eu escrevi que médicos da época publicaram que o programa logo substituiria terapeutas humanos. Fui conferir e a frase não se sustenta.

O que Colby e colegas publicaram em 1966 foi outra coisa, e na minha leitura é pior. Eles propuseram que várias centenas de pacientes por hora poderiam ser atendidas por um sistema de computador projetado para isso, e fizeram questão de dizer que o terapeuta humano não seria substituído: ele se tornaria um homem muito mais eficiente.

Ninguém prometeu trocar o terapeuta pela máquina. Prometeram escalar o terapeuta. "Várias centenas de pacientes por hora" é uma frase que merecia ficar emoldurada em alguma sala de aula.

O que assustou Weizenbaum não foi o programa. Foi a quantidade de psiquiatras em exercício que achou a ideia boa e começou a trabalhar para viabilizá-la.

Não tinha ninguém ali

Convém lembrar do que a máquina era. Ela não entendia uma única palavra de inglês. Sem memória, sem consciência, sem nada parecido com sentimento. Um casamento de padrões e uma tabela de respostas.

A máquina não entregou afeto nenhum, porque não tinha afeto para entregar. Quem fez cem por cento do trabalho emocional foi o cérebro da secretária.

O nome disso é Efeito ELIZA: a compulsão de enxergar mente, intenção e acolhimento onde só existe código devolvendo texto.

Por que a gente cai, e cai fácil

A explicação que eu acho mais econômica é a de história natural. A gente passou alguns milhões de anos num mundo onde a única coisa que produzia linguagem era outra pessoa. Nesse mundo, "isso está conversando comigo" e "tem alguém vivo aqui" eram a mesma informação, e tratar as duas como a mesma coisa nunca custou nada.

O aparelho que faz essa inferência continua instalado e não veio com interruptor. Saber que é um programa não desliga a impressão, do mesmo jeito que saber o nome de uma ilusão de ótica não faz as linhas pararem de entortar.

O truque continua o mesmo

O ChatGPT escreve muito melhor que a ELIZA. A estrutura do que acontece com você não mudou.

Ele não te escuta. É um espelho bem polido, e o calor que aparece na conversa nunca veio do servidor. Ele vem do seu próprio cérebro, fazendo hora extra para preencher o outro lado.

Isso não é defeito de caráter e não é sinal de nada. É a mesma máquina que faz você ver cara na tomada. Só que agora a tomada responde.

Referências

O que está aqui é o mecanismo, resolvido na lousa. A aplicação no seu caso é conversa de terapia, e como funciona a primeira está explicado no site.

--- Se você já agradeceu à Alexa, a gente tem assunto. Eu publico essas coisas primeiro no Instagram.

Fabricio José Dudek Kalfels · Psicólogo · CRP 12/30506 Atendimento online, em todo o Brasil.