Fabricio Dudekpsicólogo · crp 12/30506

A exposição não funciona por costume

comportamento · 12 set 2026 · 4 min

Alguns meses atrás eu publiquei um material sobre fobia em que explicava a extinção do medo como habituação: você encara, a ansiedade sobe, você fica, ela desce, e com repetição o medo cede. Era a versão que eu tinha na cabeça, e é a versão que circula.

Está desatualizada. Este texto é a correção.

O modelo antigo

A ideia de que exposição funciona por habituação não é invenção de ninguém. Ela sustenta uma família inteira de protocolos, descritos na literatura como modelos baseados em habituação, que enfatizam a redução do medo ao longo da exposição.

A lógica é intuitiva e é por isso que pegou: se o medo diminui enquanto você fica exposto, o que cura é ficar exposto até diminuir.

O dado que não encaixa

Craske e colegas, num artigo de 2014 na Behaviour Research and Therapy, relatam um achado que é difícil de acomodar nessa explicação:

estratégias de exposição que especificamente impedem a habituação se mostraram mais eficazes que estratégias que não impedem

Leia de novo devagar. Estratégias que atrapalham o processo de se acostumar produzem resultado melhor.

Se acostumar fosse o mecanismo, isso seria mais ou menos como descobrir que remédios funcionam melhor quando o paciente não os toma. O achado não refuta que a habituação aconteça. Refuta que ela seja o que faz o trabalho.

O que faz o trabalho

A proposta alternativa amarra a exposição não ao nível de ansiedade, mas ao que a pessoa espera que aconteça.

Na formulação dos autores, a abordagem de violação de expectativa liga os parâmetros da exposição diretamente às expectativas conscientemente declaradas sobre eventos aversivos. Em português direto: antes de começar, fica registrado o que a pessoa acha que vai acontecer. Depois, o que interessa é a diferença entre o previsto e o ocorrido.

O que ensina não é o desconforto passar. É a previsão falhar.

A consequência que dá para conferir

Essa mudança de modelo tem um efeito concreto, e é a parte mais útil do artigo para quem está do lado de fora:

no modelo de violação de expectativa, o fim de uma tentativa de exposição é determinado por condições que violam expectativas, e não por redução de medo

Ou seja, muda o critério de quando a sessão acaba.

No modelo de habituação, ela acaba quando a ansiedade cai. No modelo de violação de expectativa, ela acaba quando ficou estabelecido que o que a pessoa previu não aconteceu, mesmo que ela ainda esteja ansiosa.

Isso desfaz uma expectativa comum sobre o tratamento. Sair de uma sessão ainda desconfortável não é sinal de que a sessão falhou. O aprendizado não depende de você terminar calmo.

Um detalhe que muda a execução

Os autores destacam ainda que é preciso facilitar a atenção a duas coisas ao mesmo tempo: ao estímulo que dispara o medo, e à não ocorrência da consequência temida.

Suportar de olhos fechados não serve. É preciso reparar que a coisa não aconteceu. A ausência do desfecho ruim é a informação, e informação que passa despercebida não ensina nada.

O que fazer com isso

Se você vai começar um tratamento com exposição, existem duas perguntas que o próprio modelo autoriza: o que se espera que aconteça, e como se vai saber se aconteceu.

Não são perguntas de desconfiança. São os parâmetros do método.


Referências

Craske, M. G., Treanor, M., Conway, C. C., Zbozinek, T., & Vervliet, B. (2014). Maximizing exposure therapy: An inhibitory learning approach. Behaviour Research and Therapy, 58, 10–23.

O que está aqui é o mecanismo, resolvido na lousa. A aplicação no seu caso é conversa de terapia, e como funciona a primeira está explicado no site.


Fabricio José Dudek Kalfels · Psicólogo · CRP 12/30506 Atendimento online, em todo o Brasil. Acompanhe em @fabriciodudek.psi.